RSS

Inside Job

04 Set

Só ontem vi o documentário “Inside Job” (“A Verdade da Crise”, em português), que tenta explicar a origem da crise de 2008, que se alastrou por todo o globo e que ainda agora exerce grande influência na vida da população mundial.

Entre muita coisa que já não é propriamente novidade, e alguma informação que desconhecia, fixei algumas frases que me parecem emblemáticas e que representam bem alguns dos problemas actuais, que nascem na economia e nas políticas financeiras, mas cujas repercussões se estendem a várias áreas da sociedade.

A primeira pertence a um economista com grande influência nas políticas dos Estados Unidos da América e com uma visão profundamente neoliberal:

“Regulations of derivatives transactions thar are privately negotiated by professionals is unnecessary.”

(Alan Greenspan)

Este tipo de pensamento foi o que esteve na origem da crise. A ideia de que os mercados devem ser cada vez mais desregulados e que os estados não devem exercer qualquer influência (nem sequer fiscalizadora) sobre eles está enraizada na doutrina liberal (desde os seus primórdios). No entanto, desde a década de 80 que esta maneira de pensar se foi impondo e paulatinamente foi sendo executada. Os profissionais também erram, os profissionais também são corruptíveis, os profissionais também são gananciosos. A crise deve boa parte da sua origem a esta forma de pensar (ou à ideia de nos fazer pensar desta forma).

A segunda tem a ver com a importância desmesurada dos bancos nos dias que correm:

“Why do you have big banks? Well, because banks like monopoly power, because banks like lobyying power. Because banks know that when they’re too big, they will be bailed.”

(Willem Buiter)

Embora nem todos os bancos tenham sido resgatados, isto é uma verdade que, de uma forma global, me parece inquestionável. Quando a crise eclodiu, muitos governos não tiveram outra hipótese que nacionalizar ou resgatar as instituições financeiras, sob pena de verem as economias dos seus países completamente arruinadas. Mesmo depois, já com muitos dos países a braços com situações financeiras difíceis, resultantes dessa socialização da crise bancária, tiveram (e têm ainda, já que é bom não esquecer que, por exemplo, em Portugal, teremos um orçamento rectificativo criado precisamente para apoiar os bancos) de continuar a financiar a banca, que é encarada como o motor da economia. É importante relembrar também que muitas das instituições financeiras ainda sairão a ganhar desta crise (como tive oportunidade de referir aqui e como é também demonstrado no filme).

Para o fim deixo o excerto que considero mais importante, por não se reportar apenas ao passado ou ao presente mas também, e acima de tudo, ao futuro:

“Since the 1980s academic economists have been major advocates of deregulation and played powerful roles in shaping U.S. government policy. Very few of these economic experts warned about the crisis. And even after the crisis, many of them opposed reform.”

(Narrator)

“The guys who taught this things tended to get paid a lot of money being consultants. Business school professors don’t live on a faculty salary. They do very, very well.

(Charles Morris)

O que aqui é referido é que o pensamento económico neoliberal não domina as nossas universidades por acaso. Há muita gente que pensa a economia de forma diferente deste pensamento dominante (como também já tive a oportunidade de argumentar há alguns meses); no entanto, no meio académico e na comunicação social, a doutrina neoliberal domina quase em exclusivo. A tal não pode ser alheio o facto de muitos dos académicos e dos comentadores terem também eles interesses (profissionais, políticos ou pessoais) na manutenção do status quo. São eles que nos vão continuar a conduzir nos próximos tempos. Mas o que me assusta mais é que o modo de pensar das próximas gerações vai continuar a ser condicionada por aqueles que nos conduziram até aqui.


PS: Isto é uma muito boa notícia. Resta saber no que resulta esta investigação. Existiram actos criminosos que devem ser investigados, julgados e castigados. Ainda assim, considero que se o objectivo da investigação é apenas «”recuperar as perdas” financeiras infligidas a duas grandes empresas de empréstimos imobiliários, a Fannie Mae e o Freddie Mac» – quando houve milhões de afectados em todo o mundo -, me parece muito pouco. Honestamente, não sei se a classificação destes crimes como crimes contra a Humanidade poderá ser considerada exagerada.

Anúncios
 
Deixe o seu comentário

Publicado por em 4 de Setembro de 2011 em economia, governação

 

Etiquetas: , , , , ,

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: